Na descrição do pecado, trata-se de um evento primordial,
isto é, de um fato que, segundo a Revelação, teve lugar no início da história
da humanidade.A presença da justiça original e da perfeição do homem, criado à imagem de Deus, não excluía que o homem, como criatura dotada de liberdade, fosse
submetido (como os outros seres espirituais, os anjos) desde o início à prova
da liberdade, prova na qual ele caiu em falta.
A árvore (da ciência), significa o limite impreterível ao
homem e a qualquer criatura, por mais perfeita que seja. Assim, a criatura é
sempre apenas uma criatura, e não Deus. Por certo, não pode pretender ser como
Deus, conhecer o bem e o mal como Deus. Só Deus é a fonte de todo ser. Só Deus
é a Verdade e a Bondade absolutas.
Só Deus é o Legislador Eterno, do qual procede toda lei no
mundo criado, em particular a lei da natureza humana. Nem o homem nem alguma
criatura podem colocar-se no lugar de Deus, atribuindo a si o controle da ordem
moral.
Toda a existência do homem sobre a terra está sujeita ao medo
da morte, que, segundo a Revelação, se acha claramente conjugada com o pecado
original. Sinal e consequência do pecado original é a morte do corpo, como
desde então ela é experimentada por todos os homens.
O homem foi criado por Deus e para a imortalidade; a morte,
que aparece como um trágico salto no escuro, vem a ser a consequência do
pecado, quase devida à lógica imanente do próprio pecado, mas principalmente
infligida como castigo de Deus. Tal é o ensinamento da Revelação e tal é a fé
da Igreja: sem o pecado, o fim da nossa provação terrestre não seria tão
dramático.
O homem foi criado por Deus também para a felicidade, que, no
âmbito da existência terrestre, significava ser isento de muitos sofrimentos,
ao menos no sentido de ser isento. Como se depreende das palavras atribuídas a
Deus no Gênesis e em muitos outros textos da Bíblia e da Tradição, o pecado
original fez que essa isenção deixasse de ser o privilégio do homem.
A superabundância da
graça de Deus
O Credo do Povo de Deus, redigido por Paulo VI, ensina que a
natureza humana, após o pecado original, já não se acha no estado em que se
encontrava inicialmente em nossos primeiros pais. Ela está decaída, porque
privada do dom da graça santificante e também dos outros dons, que no estado de
justiça original constituíam a perfeição da natureza humana.
Trata-se aqui não só da imortalidade e da isenção de dons
perdidos por causa do pecado, mas também das disposições interiores da razão e
da vontade, isto é, das energias habituais da razão e da vontade. Como
consequência do pecado original, o homem todo, alma e corpo, foi afetado.
Segundo a doutrina católica, fundada sobre a Revelação, a
natureza humana não se acha apenas decaída; ela foi redimida por Jesus Cristo,
de modo que “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (cf. Rom 5, 20). Este
é o autêntico contexto dentro do qual se devem considerar o pecado original e
as suas consequências.
Professor Felipe
Aquino

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