sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Como seria a vida humana sem o pecado original?

Na descrição do pecado, trata-se de um evento primordial, isto é, de um fato que, segundo a Revelação, teve lugar no início da história da humanidade.A presença da justiça original e da perfeição do homem, criado à imagem de Deus, não excluía que o homem, como criatura dotada de liberdade, fosse submetido (como os outros seres espirituais, os anjos) desde o início à prova da liberdade, prova na qual ele caiu em falta.

A árvore (da ciência), significa o limite impreterível ao homem e a qualquer criatura, por mais perfeita que seja. Assim, a criatura é sempre apenas uma criatura, e não Deus. Por certo, não pode pretender ser como Deus, conhecer o bem e o mal como Deus. Só Deus é a fonte de todo ser. Só Deus é a Verdade e a Bondade absolutas.


Só Deus é o Legislador Eterno, do qual procede toda lei no mundo criado, em particular a lei da natureza humana. Nem o homem nem alguma criatura podem colocar-se no lugar de Deus, atribuindo a si o controle da ordem moral.

Toda a existência do homem sobre a terra está sujeita ao medo da morte, que, segundo a Revelação, se acha claramente conjugada com o pecado original. Sinal e consequência do pecado original é a morte do corpo, como desde então ela é experimentada por todos os homens.

O homem foi criado por Deus e para a imortalidade; a morte, que aparece como um trágico salto no escuro, vem a ser a consequência do pecado, quase devida à lógica imanente do próprio pecado, mas principalmente infligida como castigo de Deus. Tal é o ensinamento da Revelação e tal é a fé da Igreja: sem o pecado, o fim da nossa provação terrestre não seria tão dramático.

O homem foi criado por Deus também para a felicidade, que, no âmbito da existência terrestre, significava ser isento de muitos sofrimentos, ao menos no sentido de ser isento. Como se depreende das palavras atribuídas a Deus no Gênesis e em muitos outros textos da Bíblia e da Tradição, o pecado original fez que essa isenção deixasse de ser o privilégio do homem.

A superabundância da graça de Deus

O Credo do Povo de Deus, redigido por Paulo VI, ensina que a natureza humana, após o pecado original, já não se acha no estado em que se encontrava inicialmente em nossos primeiros pais. Ela está decaída, porque privada do dom da graça santificante e também dos outros dons, que no estado de justiça original constituíam a perfeição da natureza humana.

Trata-se aqui não só da imortalidade e da isenção de dons perdidos por causa do pecado, mas também das disposições interiores da razão e da vontade, isto é, das energias habituais da razão e da vontade. Como consequência do pecado original, o homem todo, alma e corpo, foi afetado.

Segundo a doutrina católica, fundada sobre a Revelação, a natureza humana não se acha apenas decaída; ela foi redimida por Jesus Cristo, de modo que “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (cf. Rom 5, 20). Este é o autêntico contexto dentro do qual se devem considerar o pecado original e as suas consequências.

Professor Felipe Aquino

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